Se joga

Que a vida, meu bem, não vai te esperar. O tempo, esse danadinho… precisa passar e passar. E que bom é enquanto, aconchegante adverbio.

Antes e depois só a mente alcança. O coração precisa pertencer ao agora. E pulsar, pulsar. Corre, vai! Se joga.

Mas não o faça de qualquer jeito, em qualquer lugar. Pense no que realmente faz valer alguns machucados e cicatrizes. Na boa, não é isso: é outra coisa e você sabe. Nosso sentimento sempre nos entrega o que é importante.

Se joga e confia ! Você vai cair com certeza, vai se machucar mais vezes do que pensa poder regenerar. E vai sorrir, vai sentir, vai ser, vai viver, vai se conhecer e crescer. Vai descobrir que é um ser incrível, igualzinho a outros seres incríveis com quem vai tropeçar pelos caminhos.

Você pode muito mais do que imagina. Você vale a pena e todas as aves do céu.

Lembra dos Lírios do campo, tá? Eles são assim por confiar.

Um dia, quando você estiver bem dolorido, Deus vai te emprestar uma estrela dele, pra te ajudar a enxergar o universo inteiro do qual vinha se esquecendo. E, assim, do nada, você vai voltar a sorrir. Vai acender sua própria luz.

E vai ser assim: entre roxos e band aids; entre contusões e curativos, entre cicatrizes e maquiagens. Uma coleção infindável de vida que pulsa e pulsa… agora.

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Tudo posso

“Alegrai-vos sempre no Senhor; e novamente vos afirmo: Alegrai-vos! Seja a vossa amabilidade conhecida por todas as pessoas. Breve voltará o Senhor. Não andeis ansiosos por motivo algum; pelo contrário, sejam todas as vossas solicitações declaradas na presença de Deus por meio de oração e súplicas com ações de graça. E a paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, guardará o vosso coração e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.

Concluindo, caros irmãos, absolutamente tudo o que for verdadeiro, tudo o que for honesto, tudo o que for justo, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, nisso pensai. (…)

Não vos declaro isso por estar necessitado, porquanto aprendi a viver satisfeito sob toda e qualquer circunstância. Sei bem o que é passar necessidade e sei o que é andar com fartura. Aprendi o mistério de viver feliz em todo lugar e em qualquer situação, esteja bem alimentado, ou mesmo com fome, possuindo fartura, ou passando privações. Tudo posso naquele que me fortalece“. (Filipenses, 4: 4-8 e 11-13

Sei que às vezes sentimos o mundo pesado demais. Sei que às vezes é tempo de neblina e tempestade. Sei das mudanças de estações. Sei de uma dor tão profunda que preferiria que não conhecesse.

Sei também de amanheceres e despedidas do sol estonteantes. Conheci paisagens que clamam por reverência ao bondoso Pai. Sei das pessoas de luz e de amor. Sei das pessoas de luta e de aprendizado. Sei da alegria do amor, do trabalho e do bem.

Sei das ilusões, sei da hora errada. Sei das distrações, dos disfarces, do orgulho e da insensata vaidade. Sei do despreparo e da incompreensão. Sei do tempo de cada um.

Sei que não há outra lei fora do AMOR.

Por isso, sigo.

Por isso, rastejo.

Por isso, recomeço.

Por isso, confio.

Por isso, vivencio.

Por isso, me perdoo.

Por isso ofereço o melhor que há em mim.

Tudo posso seguindo a lei de meu Pai.

Permanecer

‘É certo que venha a partir tudo que não me faz andar, crescer ou sorrir. É certo que venha a partir tudo que não me traz a paz pra ser feliz.

Veja como o céu é bom! De notas tristes, vem, insiste até eu mudar o tom.
Veja como o céu é bom! Do meu silêncio, faz dele um lindo som’

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Foto: Click Mazzini Por: Edir Mazzini

De tudo que precisa ir…

e do amor,

que sempre há de permanecer <3

Música: https://www.youtube.com/watch?v=85ItTupcQyE

Habilidades

Se eu soubesse desenhar, desenharia uma sequência de quadros em papel e tinta preta, para que, no movimento de passar as folhas, pudéssemos ver uma menina a andar na grama perto de uma árvore  com uma fita.

A fita é vermelha, na minha imaginação, mas no papel somente tinta preta. Seria uma sequência de desenhos simples, sem muitos detalhes e de traços quase infantis.

A menina estaria contente a correr com sua fita. Inventaria com ela desenhos no ar que só mesmo a pequena entenderia. Por fim, a menina sentaria na sombra da árvore, para observar o sol se pôr.

Ela se levantaria antes de escurecer, afinal é uma criança e tem certo receio do escuro. Amarraria sua fita com várias voltas no bracinho, quase a improvisar uma manga cumprida. Segurando as pontas do vestido, faria uma reverência ao sol, e à árvore que a acolheu, em forma de gratidão, como uma bailarina a agradecer os aplausos do público.

A menina e sua fita seguiriam seu caminho e meu desenho terminaria aí, na partida. A menina, suas brincadeiras, sua fita e o único pôr do sol que partilhamos juntas teriam, assim, mudado toda a minha vida, neste breve momento e só.

Se eu soubesse desenhar, era isso que faria. Tenho certeza de que ficaria singelo e bonito – do jeito que me preenche o coração. Ah..! Como eu queria saber desenhar…

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Marina Soares

E se…

E se desafinar?

A gente muda o tom.

E se tropeçar?

Inventamos passos de dança.

E se sangrar?

Sei fazer curativos.

E se faltar o ar?

Emprestamos o ar de balões.

E se eu errar da mesma maneira novamente?

Nunca é da mesma maneira.

E se eu não souber cuidar?

Eu também aprendo.

E se não for pra ser?

Deixa ir.

E se for pra ser?

Não deixe de viver.

E se já foi?

Vá também.

E se não há tempo?

Que haja amor.

E se a distância for medida em anos luz?

Lembre-se de que não há medidas para o pensamento.

E se o abraço for superficial?

Então nem abraço é.

E se o medo for grande?

Prossiga, é sinal antecedente de grande aprendizado.

E se o coração gritar?

Escute.

E se eu não mais suportar?

Não suporte caminhando.

E se a ansiedade me furtar o presente?

Respire.

E se eu precisar fugir?

Encontre destino.

E se eu quiser companhia?

Não a force.

E se me faltar vontade?

Tenha fé.

Reconstruir

Nesta noite, sonhei com a minha avó. Ela dizia que ia me buscar e que iríamos morar juntas, na antiga casa da rua Sete Lagoas.

– Mas, vó – eu disse – aconteceram coisas tão ruins lá! E, hoje em dia, tem outras pessoas morando nela, como vamos recuperá-la?

Ela respondeu:

– Não se preocupe, eu fiz um acordo com seu tio-avô. Ele não estava gostando de morar por lá, de toda forma. Lá tem um quintal maravilhoso, lembra? Dá pra plantar uma horta e até dá pra reservar um espaço para algumas galinhas. Não se preocupe, Marina, pois ninguém mais vai vir com a gente por enquanto. Vai ser só nós duas e vamos assistir televisão e rir dos programas repetidos como quando vc tinha 11 anos. Vou inventar doces também, para comermos enquanto assistimos tv.

Fomos visitar a casa e me senti mal por entrar naqueles cômodos cheios de histórias, de muito sofrimento na maioria das vezes.

– Vó, como você suportou tudo isso? Eu não quero ficar aqui.

– Esta é nossa casa, Marina. E olha o que vamos fazer.

De repente, as paredes foram sumindo. Não é que cairam, desmoronaram ou algo do tipo. Elas foram ficando transparente e, quando olhei ao redor, era um lote vazio com um quintal, apenas com grama e um espaço de garagem.

– Agora nós vamos fazer do nosso jeito. – disse ela – e ali vamos colocar algumas galinhas.

– Galinhas, vó? Isso vai dar trabalho.

– Sim, assim não precisaremos ficar comprando ovos. Você cuida da horta.

Eu olhei aquela pequenininha gigante e ri. Realmente gostei da ideia de cuidar da horta – de criar galinhas, bem, nem tanto.

Eu tenho pensado tanto na minha vó e acredito com meu coração neste sonho-encontro presente de Deus. Conversamos muitas coisas que eu não me lembro. Quem conheceu a história da minha vó, sabe a honra que foi fazer parte do seu convívio. Minha vó me ensinou a seguinte oração: ” Que Deus acampe seus os anjos guardiões com suas espadas protetoras em torno desta *família*”, casa, ônibus, cama, quarto, ou em torno de qualquer coisa que necessitasse proteção.

O câncer não foi gentil, atingiu o pulmão, o fígado, os rins e logo se espalhou por toda parte. Não conseguir respirar deve ser das piores sensações que posso supor. Mas Deus não poderia deixar sua obreira tão querida sofrer por muito tempo e fez com que tudo fosse muito rápido, sem ter que passar por quimio, radio ou nenhum sofrimento além. No dia que ela desencarnou, fui visitá-la. Cantei pra ela. Ela não conseguia mais respirar. E insistia em ficar. Insistia em permanecer nesse mundo muitas vezes feio e com toneladas de problemas. Ela queria ficar pra cuidar dos filhos, ela não me disse, mas eu sei.

Eu disse pra ela:

– Vó, pode ir. Todos aqui vão caminhar com as próprias pernas. Vó, você precisa ir. Você não tem que sofrer tanto. Nós vamos ficar bem.

Fui embora do hospital e me avisaram que ela desencarnou menos de 1 hora depois. Era dia de tarefa em Olhos da Luz e eu compareci. Quando a tarefa terminou, liguei pra saber sobre o velório e minha mãe disse que ela já havia sido enterrada com sua roupinha de obreira da Igreja Universal. Minha mãe disse que ela estava linda, que parecia um anjinho e que seus amigos da igreja fizeram belas orações pra ela. Não fiquei triste, eu já havia me despedido e sei bem que a vida continua mais brilhante além túmulo.

Mas eu sinto saudade. E ultimamente, mais ainda. Fico pensando se está sofrendo observando os acontecimentos atuais, mas imagino que o ponto de vista do céu é mais bonito do que o nosso aqui. Quando eu tiver meu lar, vó, eu vou cuidar de uma hortinha, nem que seja na janela. Galinhas eu não prometo não! Mas eu vou sentir sua presença nos doces inventados e quando alguém ligar a rádio num canal evangélico e deixar a noite inteira os pastores falando. Vou sentir você a me cuidar de longe, porque eu sei que eu nunca estou sozinha, mas sou grata a Deus por permitir te encontrar esta noite. Não tem sido fácil, vó. Mas eu também tenho sido uma florzinha brilhante. Nós não quebramos fácil, pequenininha.

minha pequenininha

10-07-2012