Dos meus amigos

Certo dia, estava num bosque muito chuvoso. A chuva que caia falava comigo e sobre as águas formavam-se pinóquios. Inconstante e duvidosa, a chuva me alertava sobre pesadelos e mares bravos a encontrar pela frente. Ouvi. E ela continuava a bradar raios e trovões infinitos.

Eu tinha um certo receio, mas, ainda assim, decidi por continuar a andar. Caminhei e, mais à frente, encontrei uma velha taturana que me disse para retornar. “Dali não poderia passar”. Não entendi o por que de tanto medo e tanta apreensão. Escolhi não lhe dar ouvidos e caminhei.

Adiante, encontrei um rio, muito calmo e sereno. A essa altura, a chuva já havia ficado para trás e pude ver o sol. Escondia-se nas nuvens, é verdade, mas brilhava. Perguntei ao rio o que havia com os moradores deste bosque, que estavam tão sem esperança e confiantes no pior! Doce, o rio me contou:

“Já passei em vários vales, depressões e cachoeiras. Sei bem que existe um belo mundo para além deste bosque. Se perguntar a estas árvores, porém, dirão que a vida não pode ser nada mais do que é. Elas não conhecem o que há lá fora. Eu, que já andei muito, vi matas ciliares desmatadas e a força de minha água a imperar contra o que me faz mal. Vi o mar em belas ondas e em ressaca, vi o peixe se afogar na bela praia e outro sobreviver no chão seco. Me admira a chuva trovejar infortúnios se ela própria é passageira! E foi isso, menina, que aprendi: a vida é feita de trechos. Não se acanhe se este trecho não é de seu agrado – outros melhores virão… e também passarão. Somos passarinhos, que precisam aprender a voar sem pressa, medo ou ter que chegar. Pois um dia chegaremos, e passaremos. O que não se pode é deixar de sair do lugar.”

Pequena Rosa

Por que choras, flor? Tu que és motivo de tantos poemas, de tantas inspirações. Tu que és amada pelos homens e cuidada pelas mulheres. Tu que encantas as noites e os dias de quem simplesmente olha para ti? Por que haveria motivo no mundo que a fizesse deixar de sorrir?

Não me venhas com essa de orvalho e sei bem que também não choveu. Esta água que te impregna te condena e não adianta tentar disfarçar. Quantas pétalas te arrancaram? Foi bem-me-quer que mal te quis? São os espaços, não é? Esses que te sobram!

Ah, Rosa bela! Não te aflijas com o que não podes regenerar. Preenche-te com toda a luz que te ilumina, que não é pouca e tampouco fraca. As palavras navalhas? Desculpe-as. Antes de ofensas, são só palavras querendo dizer. As palavras de amor? Sinta-as, mas não dê a elas mais atenção do que ofereces ao vento ou ao pôr do sol. São tantas as formas com as quais o amor pode se apresentar!

Sabias que teu sorriso te engrandece e te faz brilhar? Sabias que és ainda mais admirada quando tuas cores emanam tuas luzes? Sabias que podes ter quantas cores, pétalas e luzes quiseres?

Aposto que não. Pois eu te digo, pequena Rosa; estas lágrimas só te distraem de tua grandiosidade. Se choras, consentes em participar de um mundo mais triste, e, assim, deixas de fazer o mundo mais feliz.  Da próxima vez, deixes o sol tocar tua superfície, antes de refleti-lo com tuas águas. Tu não acreditarias no que és capaz de fazer quando acreditas.


Do cárcere interior

Buscamos uma liberdade insensata. Lutamos tanto por uma desculpa para nos libertarmos das amarras que criamos e sustentamos que não nos damos conta de que vivemos numa prisão ilusória. O livre-arbítrio está impregnado em nossas veias e somos, portanto, autores de e responsáveis por tudo que passamos.

A realização de vontades, ainda que essencial, não trabalha quem somos. É apenas doce que nos alegra o dia. O sofrimento contínuo, que é também opcional, não nos engrandece ou nos torna mais dignos de algo. Ele apenas nos acomoda no conforto da depressão. Deduzindo que evoluímos, arquitetamos labirintos onde nos enfiamos e nos perdemos. E sentamos e choramos e esperneamos sem entender como fomos parar ali.

Esquecemos o mais importante, ao mesmo tempo em que nos distraímos pegando caminhos errôneos, que fazem a saída parecer cada vez mais inacessível; somente o amor nos liberta. O amor que recebemos é como lua que clareia a mais escura noite. Mas o amor que emanamos… este é rei Sol capaz de possibilitar vida e de iluminar toda uma galáxia, incluindo a lua.

E esta é a verdadeira liberdade: a que vivemos quando nos desprendemos do que há de ruim em nós mesmos.