Sai de mim.

Um belo dia você acorda e tudo está exatamente como sempre esteve. Você olha pro céu. O sol, as nuvens, tudo ok. Você olha pro quarto, pra cozinha, pras pessoas. Tudo em seu lugar de sempre. Você puxa o ar. Algo estranho acontece. E não importa quantas vezes você puxe e sopre o ar, nem todo o ar do mundo parece te fazer respirar.

Aí você convive muito tempo sentindo esse sufoco todo. Logo vem o cansaço, o desânimo, tudo proveniente da tal falta de ar. Parece que as celulas do trato respiratório entraram de greve, ou sei lá. Só sei que você passa a investigar a origem disso. Começa a cutucar gavetas da alma, a encontrar muita poeira e mofo. Começa a se reciclar por inteira. Transforma todo lixo em adubo. Decide flore-ser.

Então os outros dias seguem sem que você note que está caminhando. Sem que você note os primeiros brotinhos tímidos a desabrochar. Passam-se semanas, meses. E, sem muito alarde, você nota: céus! Voltei a respirar!

Primeiro, você desconfia. Decide colocar em teste seu novo fôlego. Faz uma caminhada aqui, dá uns pulos do lado de lá. Tudo certo. Tá seguro. Tem chão, tem vento. Tem ar. Então, você decide voltar a correr. Voltar a dançar. Você se lembra de quando era criança e toda falta de ar era proveniente das intermináveis crises de riso! Ah! – há quanto tempo você não ri assim.

Só que os calos nos pés e nas mãos parecem ter, de alguma forma, afetado também o coração. Ele não bombeia o oxigênio para o pulmão com a mesma facilidade mais. Facilmente se esquece de renovar o ar. O sufoco volta. E o céu, a lua, as estrelas, as pessoas, o quarto, as ruas. Tudo no mesmo lugar. Tudo em seu lugar. Não há nada de errado neste mundo. E, ainda assim, há a falta de ar.

Diversos transtornos psiquiátricos explicariam isso. Diversos remédios diminuiriam os efeitos das dores inconscientes que sufocam aqueles que foram fortes por tanto tempo que hoje já nem se lembram mais o porquê de tanta luta.

E a única ajuda que você gostaria de ter neste momento é a sua própria. Você que sempre fez tanto por tudo e por todos, e não consegue fazer o mesmo por você. Você que poderia ser borboleta, mas insiste no conforto do casulo. Você. Você. Você.

Que, com a fé menor que um grão de mostarda, poderia dizer a toda dor e sufoco: Sai de mim! – e tudo isso se moveria para muito longe. É, você.

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Marina Soares

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