Depois

Quando pequenina, assisti em filmes e reportagens imagens de tornados atravessando cidades e destruindo tudo que havia. As casas se despedaçavam, os carros disparavam seus alarmes e eram arrastados como se fossem folhas leves a voar pelo ar, o asfalto e todas as construções sólidas se desfaziam como pó.

Eu era criança e só me preocupava se as pessoas conseguiriam ficar vivas no final do filme. Parecia um final feliz se elas simplesmente estivessem vivas, respirando – e é, sem dúvidas, uma bênção. Mas só ultimamente comecei a refletir no quanto o sofrimento pode não terminar aí. Acontece que existe um depois.

Imagino que deve ser muito difícil não ter mais quarto, casa… Não ter mais sequer a rua. Não ter mais referência. Deve ser devastador enxergar a bagunça e os pedaços das coisas espalhados por todos os lugares. Meu Deus! Como é preciso ânimo, coragem e força de vontade para reconstruir uma vida.

Mas hoje consegui ver a destruição e sua faxina compulsória de uma maneira muito mais bonita. Metaforicamente, é claro. Longe de mim desejar pessoas sem lar por aí! Aqui, me refiro aos tornados que nos visitam o coração, a mente, a vida particular, obrigando-nos incessantemente a reconstruções  compulsórias.

Estou aprendendo a sentir. E sentir é dolorido e maravilhoso. Traz paz aceitar o valor dos momentos tristes e o calor dos momentos alegres. Traz paz ver que tudo pode sim ser destruído, e depois reconstruído e moldado e remoldado, cada vez de uma forma que melhor condiz com quem somos em cada momento.

Ah.. É dolorido ver os pedacinhos e tantas coisas que eram sólidas em meio a grande poeira. Passei muito tempo admirando esse quadro. Acho que é necessário permitir-se admirar também isto. Mas agora é momento de juntar as pedrinhas, as madeiras, os pedacinhos de vida e retornar ao labor de reconstruir-se.

Inúmeros tornados ainda virão me visitar e o máximo que pode acontecer é eu ser carregada pelo vento e ficar girando girando, atordoada, no ar, até cair no chão, descabelada, machucada e desorientada – só pra perceber que ainda respiro e que posso me recuperar. E que posso reconstruir tudo à minha volta sempre! Quão maravilhoso é isso?

Juntando os caquinhos, prosseguindo. A vida se encarrega de trazer chuva e sol, de oferecer flores e arco-íris. Sou grata ao depois. Sou grata ao antes. Sou grata ao tornado e à melancolia. Sou grata pelo sol que nasceu hoje e me trouxe bom ânimo e serenidade para reconstruir.

Em tudo que fizer, faça de todo o seu coração. Faça de toda sua alma e faça com todo amor que for possível ao seu coração! E então será leve recomeçar. E então será alegre. E então até da mais dolorida angústia vai brotar uma semente de esperanca – força necessária para carregar as ferramentas e voltar à obra.

Acredito , sinceramente, poder dizer que tenho aprendido a amar muito a vida. Meu Pai não se cansa de me mostrar que confiar e amar vale a pena.

Grata sou, grata sou, grata sou!
Pelo antes, agora e depois.
Pelo meu coração desregulado.
Pela minha respiração descompassada.
Pelos atrasos e adiantamentos.
Pelos tornados e reconstruções.
Por todos vocês

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Marina Soares

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