Reconstruir

Nesta noite, sonhei com a minha avó. Ela dizia que ia me buscar e que iríamos morar juntas, na antiga casa da rua Sete Lagoas.

– Mas, vó – eu disse – aconteceram coisas tão ruins lá! E, hoje em dia, tem outras pessoas morando nela, como vamos recuperá-la?

Ela respondeu:

– Não se preocupe, eu fiz um acordo com seu tio-avô. Ele não estava gostando de morar por lá, de toda forma. Lá tem um quintal maravilhoso, lembra? Dá pra plantar uma horta e até dá pra reservar um espaço para algumas galinhas. Não se preocupe, Marina, pois ninguém mais vai vir com a gente por enquanto. Vai ser só nós duas e vamos assistir televisão e rir dos programas repetidos como quando vc tinha 11 anos. Vou inventar doces também, para comermos enquanto assistimos tv.

Fomos visitar a casa e me senti mal por entrar naqueles cômodos cheios de histórias, de muito sofrimento na maioria das vezes.

– Vó, como você suportou tudo isso? Eu não quero ficar aqui.

– Esta é nossa casa, Marina. E olha o que vamos fazer.

De repente, as paredes foram sumindo. Não é que cairam, desmoronaram ou algo do tipo. Elas foram ficando transparente e, quando olhei ao redor, era um lote vazio com um quintal, apenas com grama e um espaço de garagem.

– Agora nós vamos fazer do nosso jeito. – disse ela – e ali vamos colocar algumas galinhas.

– Galinhas, vó? Isso vai dar trabalho.

– Sim, assim não precisaremos ficar comprando ovos. Você cuida da horta.

Eu olhei aquela pequenininha gigante e ri. Realmente gostei da ideia de cuidar da horta – de criar galinhas, bem, nem tanto.

Eu tenho pensado tanto na minha vó e acredito com meu coração neste sonho-encontro presente de Deus. Conversamos muitas coisas que eu não me lembro. Quem conheceu a história da minha vó, sabe a honra que foi fazer parte do seu convívio. Minha vó me ensinou a seguinte oração: ” Que Deus acampe seus os anjos guardiões com suas espadas protetoras em torno desta *família*”, casa, ônibus, cama, quarto, ou em torno de qualquer coisa que necessitasse proteção.

O câncer não foi gentil, atingiu o pulmão, o fígado, os rins e logo se espalhou por toda parte. Não conseguir respirar deve ser das piores sensações que posso supor. Mas Deus não poderia deixar sua obreira tão querida sofrer por muito tempo e fez com que tudo fosse muito rápido, sem ter que passar por quimio, radio ou nenhum sofrimento além. No dia que ela desencarnou, fui visitá-la. Cantei pra ela. Ela não conseguia mais respirar. E insistia em ficar. Insistia em permanecer nesse mundo muitas vezes feio e com toneladas de problemas. Ela queria ficar pra cuidar dos filhos, ela não me disse, mas eu sei.

Eu disse pra ela:

– Vó, pode ir. Todos aqui vão caminhar com as próprias pernas. Vó, você precisa ir. Você não tem que sofrer tanto. Nós vamos ficar bem.

Fui embora do hospital e me avisaram que ela desencarnou menos de 1 hora depois. Era dia de tarefa em Olhos da Luz e eu compareci. Quando a tarefa terminou, liguei pra saber sobre o velório e minha mãe disse que ela já havia sido enterrada com sua roupinha de obreira da Igreja Universal. Minha mãe disse que ela estava linda, que parecia um anjinho e que seus amigos da igreja fizeram belas orações pra ela. Não fiquei triste, eu já havia me despedido e sei bem que a vida continua mais brilhante além túmulo.

Mas eu sinto saudade. E ultimamente, mais ainda. Fico pensando se está sofrendo observando os acontecimentos atuais, mas imagino que o ponto de vista do céu é mais bonito do que o nosso aqui. Quando eu tiver meu lar, vó, eu vou cuidar de uma hortinha, nem que seja na janela. Galinhas eu não prometo não! Mas eu vou sentir sua presença nos doces inventados e quando alguém ligar a rádio num canal evangélico e deixar a noite inteira os pastores falando. Vou sentir você a me cuidar de longe, porque eu sei que eu nunca estou sozinha, mas sou grata a Deus por permitir te encontrar esta noite. Não tem sido fácil, vó. Mas eu também tenho sido uma florzinha brilhante. Nós não quebramos fácil, pequenininha.

minha pequenininha

10-07-2012

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s