Calor

Conceito físico de Calor: transferência de energia térmica entre corpos com temperaturas diferentes.

Quando mais nova, eu tinha preferência absoluta pelo inverno. Ah… o frio! Pouco suor, roupas bonitas e quentinhas. Ficar debaixo de três cobertas, protegida do mundo, assistindo um bom filme e tomando um chocolate quente ou algo assim tão gostoso!

Eu era nova e não me doía tanto ver as pessoas na rua, no frio, aquecidas por papelões – eu não entendia. Eu era realmente nova e não precisava lidar com dores tensionais, tendinites e imunidade baixa. Eu era nova demais para perceber a falta de calor entre as pessoas.

Neste inverno eu senti frio como nunca antes. Dentro de casa, debaixo de duas cobertas, meias, calças e blusas de frio. Nas ruas, nas praças, na faculdade e em tantos lugares. Eu me esforcei para não sentir tanto. Mas sentir é sentir, até hoje não encontrei sinônimo que possa substituir esta ação em sua plenitude.

Observei, meio anestesiada por esse frio todo, que as pessoas andam sofrendo muito, muito mesmo. Tenho compartilhado de dores tão intensas de pessoas que amo que fico pensando se não perdi minha dores por aí, no meio de tantas turbulências. As pessoas estão sofrendo muito, cada uma dentro de sua redoma. Acho que elas esperam – e eu mesma espero – que o sofrimento seja maior que a redoma para então quebrar essas fachadas de cristal que as separam dos outros.

Hoje, quando acordei, achei que não ia conseguir sair da cama: estava tudo doendo. E pior: estava frio e o frio parece ser amigo das dores musculares. Isso sem falar nas dores dos sentimentos e nas constantes alergias da vida. Hoje eu me senti um grande vidro estraçalhado e decidi: é isso. Vou ficar por aqui.

Aí eu pensei: “Hoje tem tarefa. Ok. Vou ficar aqui até a hora da tarefa então”. Pensei melhor: “Por qual motivo eu deveria me levantar hoje?”. E a resposta: “Eu quero tocar violino”. Então eu levantei, mas tudo doía muito. “Bom, um passo de cada vez”. Seria impossível tocar com todas essas dores inconvenientes, então resolvi colocar músicas muito queridas e fingir que sei dançar. Rodei o vestido, alonguei, pulei, cantei, escorreguei, fiz gracinha dentro do meu quarto, só e de portas bem fechadas, e, vejam isso, estava bem melhor. Este foi o primeiro calor do dia.

Quando saí do quarto fui arrebatada por mais uma tempestade de problemas densos, reais, sérios e que, na boa, eu não iria solucionar. Esquentei o chá. Ando extremamente apegada a chás, chocolates quentes, cafés e queimadinhos, porque são quentinhos – e aconchegantes. Este foi o segundo calor do dia.

Peguei o violino. Treinei duas músicas até a exaustão. Dei graças. Graças à Deus por não ter desistido do dia de hoje. Já disse uma vez e repito: para mim, a música que faço é a minha forma mais sincera de falar com Deus. Este foi o terceiro calor do dia.

Tudo voltou a doer. Só que até o que não doía, pelo esforço desacostumado. Para o quarto calor do dia, bolsas térmicas bem quentinhas para aliviar as dores musculares. E com o aconchego proporcionado por dois objetos calorosos, me pus a escrever sobre o calor.

Meu coração está brilhante agora e deseja compartilhar minha parte de calor com este mundo de redomas: meu desejo de que vocês também encontrem forças, encontrem motivos, e apenas não desistam.

Não estou sozinha em momento algum, e nem vocês. Falta calor entre as pessoas, falta vontade de se importar e de aconchegar. Mas eu sei que o coração de vocês é, como o meu, na maior parte do tempo brilhante e cheio de energia, de amor. Então vamos nos transferir… uns aos outros?

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