Serafim

Na alegria dos seus 12 anos de idade, Serafim já apresentava hábitos peculiares, como o de perseguir borboletas. Elas sempre passeavam, no fim da tarde, pelo jardim da praça perto de sua casa, como se tivessem um encontro marcado com o garoto. Ele não as perseguia para caça-las ou por qualquer outra finalidade notável aos adultos, mas pela serena sensação de fazer parte de um coletivo lindo e harmonioso de vidas que voam coloridas a embelezar tudo ao redor.

Cresceu, menino forte e amoroso – se é que existe outra maneira de ser forte. Encantava muitos que tinham o prazer de conhecê-lo, com seu modo distinto de ser. Poucos conheciam o passado do menino. Menos ainda se importavam em lhe perguntar: “Como tem sentido?” – ou saber sobre seus medos e aflições presentes. Serafim respondia à ausência de perguntas e de interesse com um belo sorriso no rosto, dedicado à maravilhosa oportunidade de estar vivo, mesmo e apesar de qualquer situação ruim.

Ora, Serafim já não era mais um menino que podia passar tardes a perder a noção do tempo perseguindo borboletas. Serafim estava crescido. Não só em idade, mas também em amor. Explico: O menino-homem Serafim não gostava de medir seu tempo de existência em reles anos de vida, mas, sim, medir sua idade no quanto fosse capaz de amar.

Como se dava essa medida? Ah, pergunte a Serafim! Sou apenas a narradora desta história – gentileza me deixar de fora de reflexões para além do meu alcance: alcançar conceitos infinitos é característica própria do menino Serafim. Acontece que conheci Serafim de uma maneira, no mínimo, inusitada: estava com os pés pendurados no galho de uma árvore, de cabeça para baixo e apoiando suas mãos no chão, como a plantar bananeira, olhando fixamente o horizonte.

Aquela cena me despertou curiosidade arrasadora. De longe, tentei imitar a posição para investigar os motivos de tamanho esforço: vi prédios, casas, céu, nuvens, folhas, grama, árvores – tudo ao contrário. Permaneci sem entender e não me contive. Aproximei-me do jovem desconhecido e perguntei:

– O que você está fazendo?

Supreendido, ele sorriu:

– Ah, oi! Eu só estou testando um ponto de vista diferente.

– Ah… entendo. Bom, mas você sabe que pode fazer isso metaforicamente, certo?

– Metaforicamente… há! Pois veja bem: este é um dos problemas. Atualmente não transpomos as metáforas, não extravasamos as ideias. Tudo é resolvido pelo pensamento e… quanto à vivência? Foi deixada em segundo plano.

Levei um baque. O jovem desconhecido pendurado de cabeça para baixo numa árvore tinha razão e lucidez impressionantes.

Serafim, educado como sempre, desfez-se da posição para dar continuidade à conversa.

– Mas, e você? Por que se incomodou comigo?

– Ah, não ! Longe disso! Apenas achei um modo interessante de ver o tempo passar. De cabeça para baixo… – e, sorrindo, continuei – a verdade é que fiquei interessada em conhecer os seus motivos.

Vocês podem imaginar que a conversa se estendeu por horas, e que, apesar de não haver borboletas envolvidas, a noção de tempo foi perdida. Eu não sabia, ainda, o que havia de tão especial em Serafim. Acho que nem mesmo ele sabia e suspeito que a inconsciência disto foi um dos fatos que o levou a virar seu mundo ao contrário apenas para se encontrar.

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