No alto

Talvez, se me escutasse – não com ouvidos contaminados por entendimentos que nunca quis dizer, mas sim com o que há de puro na alma – ao menos agora, ou hora qualquer, não teríamos de reviver este drama incessante de gritos e desesperos. Eu te escuto, e o que sai de sua boca é sujo e cruel. São reclamações e xingamentos, nunca soluções e opiniões. O que sai de sua boca é absoluta maldade, tentando impregnar tudo ao redor.

Mas você não entenderia se eu falasse. Berraria, revoltaria-se com minha ousadia de dizer verdades tão inconvenientes e absurdas que eu devo mesmo é ser louca, ou viver pelo prazer de te fazer o mal. Retrucaria com mais maldizeres e eu me calaria, escutando e torcendo para que nenhuma faísca de meu ser absorvesse o veneno das suas palavras.

Não posso abrir mão de você, e nem sei bem por que, mas queria. Sei, entretanto, que ficaria pior sem mim, apesar de toda rejeição que faz questão de demonstrar. Consigo te enxergar por trás dessas cascas e camadas. Já passei dos estágios de esperança, raiva, revolta, indiferença e cansaço e não sei onde cheguei. Queria te ver melhor, queria te ajudar, mas não tenho forças mais. Queria que fossêmos melhores.

Sua hora de entender o que digo vai chegar e isso me conforta. Duro é pensar no caminho através desse tempo. Nossa hora vai chegar e , enquanto isso, vamos levando. Quisera eu que levássemos em paz, que hasteássemos bandeiras brancas. Minha bandeira está no alto, amarelada de tanta espera, e, se você me escutasse ao menos agora, ou hora qualquer, poderia ver.

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Um pensamento sobre “No alto

  1. Mas o tanto que a gente já aprendeu e está aprendendo tem que fazer de nós, um pouco mais – e além – compreensivos. Por que, de que adiantaria?

    Bandeiras amareladas de espera vão ficar um dia até roídas por traças. Mas isso há de passar pois o tempo é um grande sábio e o silêncio também.

    Imagine.. Quando a pessoa se tornar consciente das coisas que ela gritou, blasfemou , escarrou: só vai haver a voz dela. Isso já vai ser em si um martírio sem fim…

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