Fábula de Stewarts

Esta é a história de um ratinho que vivia numa pequena gaiola. E, como todos os ratos engaiolados do mundo, nosso pequenino vivia a imaginar como seria a vida do lado de fora. De suas grades, enxergava um mundo que parecia grande e majestoso.

Seu humilde lar o fazia se sentir limitado e, apesar de seu dono, sempre atencioso e dedicado, não lhe deixar faltar água, comida e carinho, ele queria mais. Queria entender o significado de uma palavra que ouvia bastante de ratos errantes que às vezes passeavam por ali: liberdade.

O ratinho, então, tomou uma decisão. Assim que uma oportunidade se apresentasse, ele a agarraria com todas as suas patas, e, se necessário, até mesmo com seus dentes de roedor. Era uma tarde ensolarada de sábado, quando seu dono decidiu limpar a gaiola. Como nosso pequeno nunca havia ameaçado fugir, o dono confiava em deixá-lo solto pelo quarto durante esse serviço.

Dizem que confiança é a coisa mais preciosa numa relação e eu concordaria se pensasse que algo pudesse ser mais precioso que o amor. O ratinho parecia não saber disso e, ao fugir dali, deu um golpe brutal em tão delicado sentimento; partiu este elo em míseros pedacinhos.

Correu pelo mundo encantado, vislumbrado, hipnotizado! Fez amizades, aprendeu coisas novas e experimentou sensações que jamais conheceria em sua gaiola. E, a cada amanhecer, prometia a si mesmo que, depois de realizado seu último desejo mundano, voltaria ao lar.

Acontece que são inúmeros os feitiços do mundo. O tempo passou e, por mais que ele desejasse profundamente retornar, a cura de seu anseio soava improvável. E, por mais que tivesse entendido que sua gaiola não era prisão, mas sim um castelo, um reino que lhe foi entregue com esmero, sentia que não iria voltar. Não saberia voltar.

Tornou-se mais um rato errante a falar ao mundo sobre liberdade, palavrinha tão curiosa que continuava a ser uma interrogação, apesar de todas as coisas que havia vivido. Sobre ela só tinha entendido uma coisa: não era aquilo. Liberdade era bem maior! Tinha que ser.

Pensou que talvez por isso fosse tão recorrente, pela inquietação do que não se sente e consequentemente não se entende. Reviveu em pensamento sua história e pensou como teria sido se nunca tivesse ido embora. Lembrou de seu dono e pensar nele doía.

E foi ao ver o perigo que um jovem passarinho corria deitado no asfalto com suas asinhas quebradas que tudo mudou. E foi ao salvá-lo, ao empurrá-lo para um lugar seguro e ao sentir o baque conseqüente do risco que correu que entendeu. Já não era mais um ratinho na gaiola e também não era mais um ratinho do mundo. Era apenas e totalmente ele mesmo, um ratinho.

E foi preciso ser completamente liberto para entender que o lado de fora também pode prender, bem como o lado de dentro pode libertar. E foi preciso se deixar para perceber que ser livre era uma escolha que independia de circunstancias, que ser livre era apenas ser – o verbo, livre de qualquer adjunto, modo, ou complemento.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Fábula de Stewarts

  1. “para entender que o lado de fora também pode prender, bem como o lado de dentro pode libertar.”

    Ja percebeu a nossa incrível capacidade de descrever os pensamentos um do outro de um jeito que sozinhos não conseguimos? .-.

    Às vezes é preciso sair, correr, pular e cair, esbanjar livre arbítrio pra podermos de fato perceber que, a liberdade, tão defendida, tão aclamada, não passa de um momento, mais como um estado de espírito do que uma situação de fato. Liberdade real nos atinge quando a gente não procura, ser “liberto” não significa necessariamente ser “livre”. Liberdade é aquela sensação gostosa que dá no peito, quando a gente acorda de manhazinha, bem antes do de costume, e sai por aí, sem visar nenhum destino em particular, só sai. É aquele calor tão singular que é luz do sol no nosso rosto, bem no alvorecer, com o ar ainda frio da noite. Liberdade está nos pequenos momentos, e o mais paradoxal de tudo, estamos sempre buscando liberdade nos horizontes longínquos, em conhecer pessoas novas, em viver situações de extremismo, quando, na verdade liberdade tem mais a ver com intimidade, si mesmo, auto-revelação.

    As pessoas confundem liberdade com libertinagem, e isso geralmente acaba muito mal huahauhauhauhau

    Brilhante texto, pra variar neh nina =]

    Atenciosamente, JoKa.

  2. “I find I’m so excited, I can barely sit still or hold a thought in my head. I think it’s the excitement only a free man can feel, a free man at the start of a long journey whose conclusion is uncertain.” (lembra? uaHhuahua)

    Não é porque eu sempre fui fã de fábulas com ratinhos, mas eu adorei o texto =)
    Vc consegue escrever fábula, poema, crônica…qualquer coisa bem! auhhuauha

    Ficou legal mesmo, xD

    =*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s