Passagem

– Estou aflito. – Disse-me o menino angelical. – Vejo os bebês dormirem tranqüilos, seguros nos colos de suas mães. Mas eles são sabem que crescem, e que crescem mais e mais.

Não entendi. Como a serenidade de um bebê dormindo poderia afligir alguém? Como poderia uma criança estar aflita? Continuei:

– Querido, por que fala isso?

– Assim como daqui a algumas horas vão acordar, daqui a uns dias vão crescer e ter de mudar. Eu sei, porque já passei por isso. Um dia, não coube mais no colo. Noutro, deixei pra trás o berço. Depois perdi as historinhas pra dormir, a luz acesa no corredor. Fiquei apenas com meu travesseiro, meus lençóis, meu quarto e meus medos.

Então, entendi.

– Venha cá. Você concorda que isso é inevitável, certo?

– Isso o que?

– A passagem do tempo.

– Bem, concordar com ela eu não concordo, mas que ela é, ela é.

– E os seus medos sempre existiram, desde quando você tinha o colo, né?

– Acho que sim…

– Mas, então, se não viver seus medos, como é que vai superá-los?

– Acho que não vou… Mas por que tenho que superá-los?

– Por que haveria de sustentá-los?

O menino sorriu. Seus olhos voltaram a brilhar e, então, ele me abraçou.

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2 pensamentos sobre “Passagem

  1. Assim como a tristeza, o medo também deve ser superado. Se ficarmos acuados por conta dele, deixaremos de viver plenamente.

    De que vale viver amedrontado e perder tudo de bom que a vida pode oferecer?

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