Touch-me-not

Contam por aí que, certa vez, um Beija-Flor se apaixonou por uma Dormideira. Pobre coitado. Dentre todas as flores do mundo, a cuja proximidade era a mais improvável, cujo beijo era o mais impossível.

Mas quem explica o gostar? Ele simplesmente acontece, sem prévio aviso, sem apresentar uma saída de emergência. E, quando se vê, já se está no topo do mundo, que coincide em ser a beira de um enorme precipício, sem asa-delta ou pára-quedas e com aquela enorme vontade de pular. Acredita-se que, nessas condições, é possível voar.

Saltar do topo do mundo, porém, é uma tarefa árdua. É confortável lá, e estranhamente seguro. E a Dormideira sabia disso. Sua vida toda havia sido sobre evitar que os sentimentos dos outros chegassem a ela, pois ela sabia. Ela sabia como eles transformavam tudo e todos à sua volta. Ela os sentia nos outros, e talvez seja esse o motivo de todo o seu medo.

O Beija-Flor… bem, estava apaixonado. E quem é mais forte do que os apaixonados? Estes se jogam sem nem perceber o que deixam para trás. Apreciam cada segundo da queda, que também é vôo. Dizem que é possível jamais tocar o chão. Mas isso pode ser só porque os beija-flores têm asas, já as flores… As flores não sabem o que é sair do chão.

Entretanto, ele estava disposto a conquistá-la. Visitava-lhe todos os dias, só para estar em sua presença. Às vezes, dava piruetas no ar, para chamar sua atenção. Precisava beijar outras flores para sobreviver, mas isso o matava. As outras flores agora eram fáceis e comuns. Só ela encantava. E ela sabia disso também.

Pois é de certo que não existe sentimento tão grande assim que não seja recíproco. Se não é recíproco, nem sentimento é, é engano. As dormideiras não me enganam. Seu fechar ao toque não é uma resposta involuntária, é uma escolha. Uma seleção tão sutil que só mesmo os brilhantes conseguem aproximar-se sem fechá-las.

Pode-se dizer que este beija-flor era suficientemente iluminado. Quando percebeu que os beijos de outras flores o matavam mais do que o mantinham vivo, entregou-se profundamente. Decidiu que só o beijo da Dormideira fazia sentido. E tudo só valia a pena se fosse por ela. Resolveu aproveitar cada fração de tempo ao seu lado. E de lá não saiu, nunca mais.

Alguns falam que o Beija-Flor a convenceu a voar, outros dizem que ele finalmente encontrou o chão. Talvez tenha havido um beijo, talvez tenha sido o beijo, ou talvez não. A verdade é que, mesmo se estes protagonistas resolvessem nos contar sua história com toda veracidade e com todos os detalhes, eles continuariam a ser os únicos a saber. Só eles viveram. É unanime, contudo, que um evento extraordinário aconteceu: Na presença do Beija-Flor, a Dormideira nunca mais se fechou.

Anúncios

8 pensamentos sobre “Touch-me-not

  1. Oh, que liiiiindo Nina. *—-*

    Perfeito!!!

    Eu acredito que assim como o beija-flor e a dormideira, muitas pessoas podem se entregar umas pras outras e serem imensamente felizes.

    As vezes é difícil conquistar os outros e chamar a atenção deles, mas, quando os cativamos, cativamos por toda a vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s