Abandono

Meu mundo gira em torno das distrações. O que faço agora, inclusive. Seria mais belo registrar que me importo. De fato, me importo. Não com o que deveria, muito menos com o mesmo que as boas almas. Importa-me cessar o tédio e a depressão infinitos. Mas, convenhamos, isto é impossível. Então, me distraio. Apesar de preferir pensar que vivo.

Naquela noite, ele era a distração mais atraente. Um perfeito cara comum, do tipo que tem plena consciência disso. E ele me olhou. Uma das minhas distrações preferidas é dissecar olhares. Não é tão inebriante quanto ser capaz de sentir o que eles emanam, mas me basta. Sei que o olhar lançado por ele era conveniente àquele momento meu. Então, permiti. E ele se arriscou.

Mas eu avisei. Avisei que era estrela morta, dessas que ainda brilham, mas não existem mais, e fingi. Fingi para mim que ele havia entendido que não se pode contar com esse tipo de astro. Bem, ele? Provavelmente me achou lunática. E, pelo visto, não deu a mínima.

Inconsciente, atuou esplendidamente no papel que lhe impus. Foram semanas tentando me mostrar as belezas deste mundo tão desgastado e sem graça. E eu tentei, juro que me esforcei para sentir o que ele sentia, ver as coisas do jeito que ele via. Acho que, em algum ponto da minha vida, desenvolvi um erro genético que me impede de ver as coisas como elas não são. Ele via a beleza das rosas, já eu percebia o truque que envolvia todas aquelas cores contagiantes. Truque, este, que leva todo ser humano a se machucar com os espinhos.

Então, decifrei aquele olhar. Aquele com o qual eu não sei lidar. Percebi que tinha ido longe demais e decidi. Não precisava de mais dúvidas, análises e incertezas, já era perturbada o suficiente para não querer prosseguir com isto. Assim o fiz.

No nascer do dia, morte da noite, pedi desculpas. Dei-lhe o beijo. Suponho que só depois ele tenha entendido que o beijo era de despedida. Lembro-me, porém, das últimas palavras que ouvi de sua boca: “Você está bem?”. Eu sorri, e disse: “Como sempre”. Apertei sua mão, ao mesmo tempo em que lhe entreguei um bilhete. Fui embora, deixando as palavras “Fica bem”.


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10 pensamentos sobre “Abandono

  1. Depois meu texto é depressivo xP
    Olha que pessoa mais emo =P auhahuahua

    Vc escreve bem demais amor >< me sinto humilhado com meus textinhos simples e sem nada demais =P

    Não te amo!

    VIDA! ALMA!!

    =**********=

  2. Você e seus textos brilhantes. xD
    Dessa vez não precisei ler mais de uma vez pra captar o sentindo que você havia imposto a ele.

    Bom, entendi que apesar dela enxergar a vida de uma forma diferente, ela não é confusa, pois tudo que lhe convém é claro. Entendi também que ela não se permite encontrar alguém, e quando fez isso, não ficou acompanhada por muito tempo.
    Parece que ela só enxerga o lado mais triste da vida, o mais racional ou pessimista. Ela até tenta ser mais emocional que racional, mas não consegue, então ela parte e deixa pra trás alguém que pode não ter mudado sua vida, mas a fez sentir algo diferente do seu normal.

  3. Ai como eu queria me expressar dessa forma..comecei agora entao tenho muito o que aprender..
    gosto d etextos pessoais,sentimentos entende?:p

    Lindo!!!

    ^^

  4. Pingback: Legado « Lovely.

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