Renúncia

Ainda que eu pudesse me fazer clara e envolvente como as cenas de um filme bem produzido, e ainda que fosse possível ter a certeza de que essa minha clareza seria sinceramente captada de forma singela – aquela forma das coisas como elas são e nada mais- pelos corações bondosos de vocês,  não teria condições de expressar a intensidade com que a lição da renúncia me visita a cada instante.
De passinho em passinho torto e medroso, tenho vivenciado tanto. Paulo já me avisara -com tamanha antecedência – que de nada valem todas as letras do mundo, sem o amor. Jesus, dentre tantos outros ensinamentos e conselhos, já havia me dito que seria necessário abandonar até mesmo minha própria vida, para conhecer a vida que é verdadeira, o reino de Deus que reside dentro de mim. Deus me permite experimentar nesta existência a vivência de um lírio do campo, ao qual Deus veste, cuida e protege, apenas para que ele nasça em meio ao lodo, resista e traga ao menos um tímido perfume a preencher o ambiente ao redor. Nada é tão grave quanto nos parece à primeira vista, quando temos por sustentáculo a confiança maior no amor, a fé. Diante de tanto amor e aprendizado, de tanto esforço e amparo, nada posso testemunhar além da incalculável bondade do Pai. Renunciar é um ato de extrema decisão. ‘E, se, com a mão no arado, olhares para trás, não será digno de mim’ – já alertou meu bondoso Mestre. Pois que a renúncia entrega à vida todo o amor que tenho pra dar. Meu pai Doutor já me ensinou as únicas coisas que levarei desta existência: meus amigos e minhas atitudes. Peço ao bom Deus que me ajude a sempre recordar que até mesmo o amor que sinto preciso completamente entregar. Quando ainda não me seja possível compreender e concordar, que, com e por muito amor, eu possa renunciar.

Sinceros desejos de Paz! <3

Crê-ser

Quem eu sou grita. Não pede licença, não pede desculpas. Não se importa em aparentar, mais interessado que está em ser do que em pareceres.

Quem eu sou não precisa. Não depende, não se limita. Sabe que ser é sempre caminhar e que, cada único trecho do instante agora é e já passou. E será novo e será diferente. Não se prende, segue.

Quem eu sou não é. Não se preocupa em se definir assim ou daquele jeito. Já aprendeu a gostar mais do que não se pode explicar. Não se angustia por fazer sentido. E faz, e é.

E, diante de tantos protestos, de tantas revoltas e petições ignoradas. Diante da revolução que há milênios esteve, insistente, aqui dentro de mim, eu hoje me conquisto no mesmo instante em que me rendo.

Sem mais tantos conflitos. Sem mais tantas cobrança. Sem mais desamor por mim. Apenas uma enorme gratidão pela maravilhosa oportunidade de existir. Levanto a bandeira, branca e vermelha, de paz em ser quem eu sou.

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Marina Soares

Sai de mim.

Um belo dia você acorda e tudo está exatamente como sempre esteve. Você olha pro céu. O sol, as nuvens, tudo ok. Você olha pro quarto, pra cozinha, pras pessoas. Tudo em seu lugar de sempre. Você puxa o ar. Algo estranho acontece. E não importa quantas vezes você puxe e sopre o ar, nem todo o ar do mundo parece te fazer respirar.

Aí você convive muito tempo sentindo esse sufoco todo. Logo vem o cansaço, o desânimo, tudo proveniente da tal falta de ar. Parece que as celulas do trato respiratório entraram de greve, ou sei lá. Só sei que você passa a investigar a origem disso. Começa a cutucar gavetas da alma, a encontrar muita poeira e mofo. Começa a se reciclar por inteira. Transforma todo lixo em adubo. Decide flore-ser.

Então os outros dias seguem sem que você note que está caminhando. Sem que você note os primeiros brotinhos tímidos a desabrochar. Passam-se semanas, meses. E, sem muito alarde, você nota: céus! Voltei a respirar!

Primeiro, você desconfia. Decide colocar em teste seu novo fôlego. Faz uma caminhada aqui, dá uns pulos do lado de lá. Tudo certo. Tá seguro. Tem chão, tem vento. Tem ar. Então, você decide voltar a correr. Voltar a dançar. Você se lembra de quando era criança e toda falta de ar era proveniente das intermináveis crises de riso! Ah! – há quanto tempo você não ri assim.

Só que os calos nos pés e nas mãos parecem ter, de alguma forma, afetado também o coração. Ele não bombeia o oxigênio para o pulmão com a mesma facilidade mais. Facilmente se esquece de renovar o ar. O sufoco volta. E o céu, a lua, as estrelas, as pessoas, o quarto, as ruas. Tudo no mesmo lugar. Tudo em seu lugar. Não há nada de errado neste mundo. E, ainda assim, há a falta de ar.

Diversos transtornos psiquiátricos explicariam isso. Diversos remédios diminuiriam os efeitos das dores inconscientes que sufocam aqueles que foram fortes por tanto tempo que hoje já nem se lembram mais o porquê de tanta luta.

E a única ajuda que você gostaria de ter neste momento é a sua própria. Você que sempre fez tanto por tudo e por todos, e não consegue fazer o mesmo por você. Você que poderia ser borboleta, mas insiste no conforto do casulo. Você. Você. Você.

Que, com a fé menor que um grão de mostarda, poderia dizer a toda dor e sufoco: Sai de mim! – e tudo isso se moveria para muito longe. É, você.

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Marina Soares

São feitas de água salgada

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Já reparou nas ondas do mar em períodos de lua nova? São, normalmente, serenas e leves. E, na medida em que a lua vai se transformando, se apresentando ao céu para protagonizar a noite, as ondas do mar se modificam. As ondinhas tímidas e brandas ganham corpo e intensidade. Ganham até mesmo voz, se escutar bem.

A lua cheia sempre encanta. Provoca nas ondas que sejam o máximo que podem ser. E que alento é a lua nova, quando permite ao mar que restabeleça calmaria e paz. As luas crescente e minguante são fases de transições necessárias para que tanto o estupor não seja excesso, nem a tranquilidade um abrupto descaso.

É bem verdade que são as mínimas gotinhas de água, que compõe cada onda, que se agitam e tentam, da lua, se aproximar cada vez mais, ao mesmo tempo em que a lua se deixa resplandecer em se apresentar.

Desculpem-me os cientistas, os astrólogos, naturalistas. Me perdoem os religiosos, os pensadores e teóricos de toda sorte: As ondas e a lua tem ligação maior do que a vã química molecular poderá me explicar.

E, se dois seres tão distantes se interligam de tal maneira, o que dizer de tantos universos que se cruzam com os meus todos os dias? Mares e luas que somos, marés e fases que vivenciamos juntos, às vezes, sem ao menos notar.

Ó, Senhor do mundo, só por favor não me permita ser gota desatenta a evaporar na areia dos meus dias, enquanto a maré se renova a cada amanhecer e pôr do sol, enquanto a lua, nobremente, nunca deixa de refletir o brilho do sol na vivência e evolução de cada uma de suas fases.

Marina Soares

Primavera

Aos poucos as flores preenchem a alma. Brotinhos inimagináveis a despertarem, como a seguirem comandos de um majestoso regente.

A chuva visita, sem avisos prévios, os dias que revezam entre sóis e nuvens. Ela, por vezes, destrói algumas florezinhas tímidas, entristecendo o solo do coração.

Sem demora, porém, resplandece o arco-íris, e outras flores se fazem mais belas pela nutrição decorrente da mesma água que outrora rasgava pétalas e caules.

O sol retoma seu posto estrelar, sem o estupor dos dias quentes, mas radiante. O vento suspira, sereno, e solfeja melodias suavemente… só para aqueles que pararem para o sentir.

É primavera: de tristeza doce e alegria bela. De alma florescente e esperança sincera. De singular encanto.

Dos pássaros do céu e dos lírios do campo.

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Marina Soares

Tolices

Olho demoradamente para o o céu. Camadas de nuvens e tons sobrepostos, às vezes azuis, vermelhos, cinzas… E o horizonte infinito.

Retorno o olhar para a estrada, retrovisor, e vejo meus próprios olhos. Percebo tantos anseios, tantos sonhos e – ouso – tantos universos dentro de mim.

Meu estado atual é sereno, mantido a esforços de abnegação e devotamento incessantes. Tenho aprendido a não me limitar – por nada, por ninguém. E sentir. E sinto… Sinto tanto !

Olho pro céu e percebo a tolice da vaidade, do orgulho, de não olhar nos olhos. Percebo a tolice de não dizer aquilo, de deixar passar um momento, de não oferecer ao mundo um pouco de carinho.

A tolice de me afogar em mim quando há tanto ar no pulmão das pessoas que sopram sem cessar apenas para me mostrar: você não está só.

Respiro. Olho novamente o azul que não termina. Fecho meus olhos e sonho.

Marina Soares

Sobre Saudade

Este texto é como quando os olhos se enchem de lágrimas, mas escorre apenas uma gotinha tímida e indecisa. Não sabe se cai por melancolia ou se transborda por muito amor.

Estava cá, pensando que a maioria das pessoas que encontramos na caminhada está de passagem e só vai permanecer por alguns instantes.

Claro que o eterno é relativo, pois memórias e saudade são essas caixinhas de guardar pessoas-preciosas no infinito de nossos corações. A presença física, porém, é presente.

“Uma das maiores alegrias na Terra é encontrar corações que se simpatizam com o seu”.

E talvez seja uma das maiores angústias ter de deixá-los ir. Poucos são os que permanecerão conosco, raros são. E, nem por isso, toda essa gente que nos ilumina e por quem sentimos tanto afeto, que se vai como um relâmpago, deixa de permanecer um pouquinho em nós.

“A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar”- já disse a raposa.
É um risco maravilhoso, para quem na vida se permite amar. São lágrimas gotas de luz, resultado de tudo que sentimos de bom por alguém.

Eu repito: a maioria dos corações queridos vai partir um dia. Eu também vou. Mas rogo pela ousadia de que o medo da despedida não nos furte a alegria da presença.

Carpe Diem! Aproveite, viva, sinta! O dia, as pessoas, os sentimentos: únicos, instantes, presentes.

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Marina Soares